Um congresso excepcional , num lugar maravilhoso

Mês passado estive num congresso muito interessante , que qualifico como o melhor evento de todos de que já participei  na área de cirurgia do ombro .  Foi na França , numa cidade muito charmosa chamada Annecy , próxima da Suíça . A pequena cidade que fica ao redor de um grande lago de mesmo nome é o local onde o renomado Dr. Laurent Lafosse recebe cirurgiões de todos os cantos do mundo , realizando um congresso baseado em cirurgias ao vivo . As indicações , as técnicas cirúrgicas , os detalhes , as complicações e dificuldades de cada operação  são expostas ao vivo , permitindo aos participantes adquirir uma experiência muito enriquecedora .

Abaixo deixo algumas fotos do local . Gostei tanto do congresso e da região que torço para que daqui a dois anos possa voltar para a próxima edição deste fantástico encontro !

ANNECY

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Hotel do congresso

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Fratura-luxação do ombro

Neste feriado atendi uma paciente com uma história inusitada. Relatava que três dias antes de me procurar, passeando num dos parques da Disney, em Orlando, ao sair de uma das atrações, se desequilibrou e caiu no chão. Ao apoiar a mão, tentando diminuir o impacto da queda, sentiu o ombro sair do lugar. Recebeu os primeiros socorros no parque e foi encaminhada a um hospital da região . Os médicos então fizeram o diagnóstico da situação : fratura-luxação do ombro . Eles  tentaram, sob anestesia, por mais de uma vez, reduzir o ombro, ou seja , colocá-lo no lugar. Infelizmente este procedimento não teve o objetivo alcançado e , diante disso, lhe disseram que teria de ser submetida a uma cirurgia. A paciente e seus familiares, sentindo-se inseguros em realizar tal procedimento no exterior, solicitaram  que tivesse alta e decidiram retornar ao Brasil para finalizar o tratamento. Mesmo com muita dor e imobilizada com tipóia, voaram de volta e imediatamente me procuraram.

Curiosamente, a mãe da paciente, anos antes, já tivera situação semelhante e fora por mim atendida no ps. Felizmente, naquele caso, tive sucesso em resolver a luxação do ombro com uma manobra simples de redução     .Abaixo ilustro como normalmente reduzimos uma luxação do ombro .

Voltando para o caso atual ,  avaliei a paciente clínica e radiograficamente e constatei   uma fratura-luxação do ombro , exatamente como lá nos EUA . Internei a paciente e , no dia seguinte pela manhã ,  a operei   .Abaixo mostro as imagens de raio-x e tomografia computadorizada antes da cirurgia.

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Não foi um caso fácil, o fato da cabeça do úmero ter ficado deslocada por 3 dias dificultou a redução , mas ao final da cirurgia conseguimos ter uma posição adequada do ombro , com uma fixação da tuberosidade maior com um parafuso e alguns pontos transósseos de alta resistência ( estes não observados na radiografia pós operatória ) . Abaixo estão as radigrafias pós-operatórias .

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Hoje , dois dias após a cirurgia , a paciente teve alta sem dor . Deverá ficar com uma tipóia por cerca de 5 semanas , começando uma fisioterapia dentro de um mês . Voltarei oportunamente a este caso para relatar a sua evolução final.

Infiltração no ombro – veja como é

A infiltração no ombro pode ser usada em diversas situações : : tendinite , bursite , calcificação , ruptura dos tendões (ruptura do manguito rotador) , capsulite adesiva ou ombro congelado , artrose ou artrite degenerativa. Ajuda a aliviar a dor e melhorar a mobilidade articular. Deve ser feita após análise do ortopedista e após serem discutidas as vantagens e desvantagens com o paciente . É um procedimento rápido e feito no consultório .

Artroplastia do ombro – osteonecrose da cabeça do úmero

Como já escrevi em outro post – artroplastia de ombro  – existem diferentes tipos de prótese de ombro disponíveis no mercado da Ortopedia . Cada prótese tem uma indicação e características próprias .

Recentemente atendi uma paciente de 50 anos com evolução dolorosa do ombro por cerca de 6 meses , sem trauma . Relatava uso de corticóide  para dor nas costas . Os exames de  radiografia e de ressonância mostraram uma lesão na cabeça do úmero , compatível com o diagnóstico de osteonecrose da cabeça do úmero.

Diante do quadro doloroso e de limitação do paciente, optamos por uma prótese parcial , que recobre apenas a cabeça do úmero .  É conhecida por prótese de superfície , por substituir apenas a superfície articular ,preservando a maior parte da articulação .

Abaixo mostro a radiografia pré-operatória , mostrando a lesão na cabeça umeral .

A radiografia pós-operatória se encontra abaixo , com a cabeça recoberta ( prótese Global CAP ) .

Abaixo mostro uma animação que ilustra como  o ortopedista realiza esta cirurgia :

Âncoras na Ortopedia

A ortopedia e a traumatologia evoluíram muito nos últimos 20 anos  , em parte devido ao surgimento e desenvolvimento de diferentes tipos de implantes . As próteses de ombro , de joelho e quadril  se modernizaram tanto no design quanto na sua composição , permitindo um resultado melhor e uma durabilidade maior . Os diversos tipos de placas e hastes usadas nas fraturas também tiveram uma evolução formidável. Mas , na minha opinião , um dispositivo relativamente recente merece um destaque especial e é  sobre ele que eu vou falar hoje : âncoras .

As âncoras permitem a fixação de tecidos moles ( ligamentos , tendões , cápsulas ) ao osso , permitindo a reparação de diversos tipos de lesões , sejam elas traumáticas ou degenerativas  . Basicamente , numa âncora , temos duas partes : a parte que ficará ancorada e fixa dentro do osso e que se parece normalmente com um parafuso e a outra parte que é um fio que servirá para prender o tecido solto ou um enxerto ao osso.  São muito utilizadas em cirurgias do ombro , mas também podem ser utilizadas em outros locais  como o cotovelo , o tornozelo , o  quadril , a mão e  o joelho . Para melhor entendimento de como utilizamos uma âncora , mostro o vídeo abaixo , que mostra como um tendão roto no ombro foi fixado ao osso por uma âncora:

Os fios presentes nas âncoras utilizados atualmente são extremamente resistentes e tem nomes comerciais variados : Fiberwire , Orthocord , Maxbraid , etc .  De tão resistentes , temos até dificuldade para cortá-los com as tesouras cirúrgicas e usamos nas artroscopias cortadores especiais bem afiados.

 Já as âncoras propriamente ditas podem ser metálicas ou não-metálicas . As primeiras desenvolvidas foram as metálicas e biomecanicamente falando são muito eficazes , garantindo uma fixação extremamente forte no osso. As desvantagens das âncoras metálicas são :

– quando usados próximas à articulação , como numa cirurgia de luxação do ombro , podem migrar ou ter parte dela exposta para dentro da articulação , causando grave dano à cartilagem articular ;

– em exames subsequentes porventura necessários , como uma ressonância magnética ,podem distorcer a imagem , dificultando um diagnóstico mais preciso ;

– em reoperações podem dificultar o novo procedimento .

As âncoras nao-metálicas são feitas em sua maioria de um derivado do ácido polilático , chamado  ácido poli-L-láctico (PLLA) .Parece um ” plástico ” . Estas são absorvíveis no médio prazo . Recentemente um novo polímero chamado PEEK  tem entrado na composição das âncoras , sendo um ” plástico inabsorvível “.

Uma última opção , ainda não disponível para o ortopedista aqui no  Brasil , é uma ” âncora ” composta somente de um fio de poliester extremamente resistente, como mostram a figura e o vídeo abaixo .

 

Lesão labral do ombro

 O labrum ou lábio é um tecido fibocartilaginoso presente no ombro e que recobre a glenóide ( parte da escápula ) , tornando esta articulação mais estável . A cabeça do úmero , de forma esférica , se articula com a glenóide , praticamente plana . Com a presença do labrum , a glenóide torna-se concâva e se amolda melhora a convexidade da cabeça umeral e os movimentos ficam mais congruentes , dificultando a luxação . As figuras abaixo mostram este conceito :

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O labrum pode sofrer alterações de diversos tipos e por diversas causas . Entre as causas básicas , podemos dividi-las em traumáticas ou degenerativas . E , do ponto de vista anatômico , os tipos de  lesões assumem diferentes aspectos e locais e alguns posssuem nomes específicos , como os que seguem :

– lesão de Bankart : lesão relacionada a luxação traumática do ombro , mais comumente quando ele se desloca para a região anterior. O labrum pode se desinserir da glenóide e episódios de luxação podem se tornar frequentes .

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– lesão de Bankart reversa : se houver uma luxação posterior , o labrum inserido na parte posterior da glenóide pode ser desinserido , como mostra a figura abaixo.

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– SLAP ( superior labral antero-posterior ) : é uma lesão que acomete a porção superior do labrum , junto a inserção do tendão do bíceps  ( cabo longo ) . Existem divesos tipos de lesão slap . Abaixo mostramos uma figura ilustrativa deste problema :

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– lesão labral com cisto paralabral : existem lesões em que ocorre uma penetração de líquido articular e formação , através de um mecanismo valvular , de cistos . Estes cistos podem comprimir estruturas próximas e gerar dor .

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– lesão degenerativa : lesão presente em paciente mais idosos , o labrum apresenta um desgaste natural e normalmente não exige um tratamento cirúrgico .

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Como observado acima, existem diversos tipos de problemas que acometem o labrum . Os sintomas envolvidos são diferentes , podendo envolver : instabilidade ( com luxação do ombro ) , dor , fraqueza , dificuldade para alguns movimentos para arremesso , atrofia muscular ( por exemplo , nos cistos paralabrais com compressçao nervosa ) .

O diagnóstico deve ser suspeitado na história e através de manobras de esame físico e pode ser ser confirmado com um exame de ressonância magnética ( às vezes , somente após o uso de contraste) . Em alguns casos , o diagnóstico é observado durante a artroscopia de ombro que o ortopedista realiza , quando se faz a inspeção da cavidade articular .

O tratamento deve ser individualizado , baseado nos sintomas, idade do paciente , esporte praticado .