O ciborgue e a ortopedia

Na visita que fiz ‘a sede da Academia Americana de Ortopedia , tive o prazer de conhecer o “Miracle Manny” , na verdade um ciborgue . Procurei o significado de ciborgue e achei na Wikipedia a seguinte definição :   ciborgue é um organismo cibernético, isto é, um organismo dotado de partes orgânicas e mecânicas, geralmente com a finalidade de melhorar suas capacidades utilizando tecnologia artificial. 

Como vimos ,  nada mais é do que um esqueleto artificial , recheado com todos os tipos de artefatos que a ortopedia moderna dispõe para tratar as mais diversas patologias e doenças, como fraturas , encurtamento de membros, deformidades congênitas a desgastes articulares. Existem todos os tipos de materiais neste esqueleto: placas , parafusos , fixadores externos , próteses . Foi um belíssimo trabalho concebido e realizado pelo Dr . James Hamilton , da Universidade de Missouri .

Em contraponto a toda  esta modernidade , que deve ser utilizada quando apenas e tão somente necessária ,coloco que o antigo gesso ainda tem seu espaço na ortopedia e isto será um assunto para um outro dia.

Aqui coloco um link de um vídeo com mais alguns detalhes do Miracle Manny.

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Going to Chicago…

Chicago

Estive um pouco ocupado esta última semana . O trabalho não me deu muita folga , as férias dos pequenos também me afastaram deste gostoso ofício. E os preparativos para minha viagem a Chicago complementaram as minhas poucas horas vagas . Estou indo para um curso de ombro na Academia Americana de Ortopedia ( AAOS ) . É um curso teórico-prático , focado em instabilidade de ombro ( luxações e subluxações ) , ministrado por grandes nomes da Ortopedia do tio Sam . Será um bate-volta rápido e tentarei filtrar alguns conceitos e pontos importantes que dizem respeito a esta importante área da cirurgia do ombro. Certamente também passearei por esta interessante cidade , que já tive o privilégio de conhecer em outro Congresso , mas numa época bastante fria .  Colocarei alguns posts desta minha experiência . Boa viagem .

Fratura “oculta” do colo do rádio

Hoje atendi um paciente que teve um acidente de bicicleta há 1 mês . Foi atendido num pronto-socorro de um bom hospital aqui em São Paulo . Relatou ao plantonista o trauma que sofrera em ambos os antebraços e cotovelos . Foi avaliado clinica e radiologicamente e não foram constatadas fraturas . Foi orientado a tomar medicamentos anti-inflamatórios e observar o quadro. Hoje queixava-se ainda de dor na região do cotovelo e dificuldade quando apoiava as mãos  para se levantar . Apesar da dor , seus movimentos do cotovelo e punho eram praticamente normais. Solicitei uma nova radiografia e constatei uma fratura na região do colo do rádio , próximo a extremidade superior deste osso na articulação do cotovelo . As radiografias iniciais e finais estão mostradas abaixo.

radiografia inicial

radiografia após 1 mês

Expliquei que após 1 mês não havia mais necessidade de imobilização , que o paciente devia evitar de se apoiar na mão e aguardar o final do processo de consolidação da fratura .Prescrevi também fisioterapia.

Em relação ao fato de não ter sido observada a fratura inicial , coloquei que isso realmente pode acontecer na ortopedia e traumatologia. Expliquei que, num primeiro momento , as fraturas podem passar desapercebidas , mesmo com uma radiografia de boa qualidade . Uma fratura sem desvio , imperceptível na sua fase mais precoce , pode sofrer um processo de reabsorção e sofrer um pequeno desvio , tornando-se visível numa avaliação radiográfica posterior .

Certamente que um médico experiente , diante de um quadro que envolva grande energia , diante de um quadro clínico de bastante dor mas sem deformidades , mesmo que a radiografia não mostre alterações , deve agir com cautela e orientar estas possibilidades ao paciente . Em caso de dúvidas , uma saída inteligente é imobilizar e pedir um retorno dentro de alguns dias para uma segunda observação .

Em alguns centros , também podem ser solicitados exames mais sofisticados  , como a ressonância magnética , que podem mostrar fraturas ou outras lesões que as radiografias não mostram .Mas estas tem que ser pedidas com sensatez e não de rotina .

Campeão de golfe quebra a fíbula após pular no lago

O jogador francês  Thomas Levet ,  campeão do torneio de golfe Alstom Open de France  , fraturou a fíbula ao comemorar o seu título ,  pulando em um dos lagos do campo . Abaixo podemos ver  o vídeo do acidente e observar a dificuldade com que anda após sair do tragicômico banho .

Aproveito para tecer alguns comentários sofre as fraturas da fíbula :

– a fíbula é um dos dois ossos da perna , mais fina e mais lateralizada que a tíbia ( esta o maior osso ) , conforme ilustra a figura abaixo.

– a fratura diafisária ( parte mais central do osso ) isolada da fíbula é rara na ortopedia , acontece normalmente por um trauma direto . Sempre devemos investigar alguma lesão ligamentar associada na região do joelho ou do tornozelo .

O tratamento da fratura diafisária isolada normalmente é feito com medicamentos para a dor,  uso de uma bengala ou muletas e eventualmente podemos também engessar a perna do paciente;

– quando temos um fratura da fíbula associada a uma fratura diafisária da tíbia , o tratamento da tíbia é normalmente o prioritário ( não entrarei nesta discussão neste artigo ) ;

 – a fratura da fíbula em seu terço distal , chamado maléolo lateral , entra na classificação das fraturas do tornozelo e existem inúmeros subtipos de fratura e o tratamento pode ser cirúrgico ou não , dependendo principalmente do desvio e encurtamento dos fragmentos envolvidos;

– existe uma fratura especial da fíbula , chamada de Maisonneuve, que se refere a uma fratura espiral do terço superior da fíbula, com uma ruptura da membrana interóssea e uma fratura associada do maléolo medial ou uma ruptura do ligamento deltóide profundo do tornozelo . A fratura de Maisonneuve está ilustrada ao lado.

Leia mais sobre fraturas da fíbula em esportistas neste link e aqui também.

Dicas para não ter dores nas costas

As dores nas costas estão entre os principais motivos que levam um paciente a procurar um ortopedista . Algumas pequenas dicas , listadas a seguir , ajudam a minimizar a chance de você ter estas dores .

– Caso tenha que levantar um objeto : planeje com antecedência o que você quer fazer e não tenha pressa.Posicione-se perto do objeto que você quer levantar. Separe os pés na largura dos ombros para ter uma base sólida de apoio. Dobre os joelhos. Contraia  os músculos do estômago. Não tente levantar sozinho um objeto que é muito pesado ; se necessário , peça ajuda.

Enquanto estiver segurando o objeto, mantenha os joelhos levemente dobrados para manter o seu equilíbrio. Se você tiver que mover o objeto para um lado, evitar a torção de seu corpo.Ponha os dedos dos pés na direção que você deseja mover e gire nessa direção. Você deve manter o objeto próximo a você quando em movimento.

– Apoiando as suas costas enquanto sentado:

Ao sentar, mantenha as costas em uma posição normal e ligeiramente arqueado. Certifique-se de sua cadeira suporta a região lombar (apoiando o bumbum e não o meio das costas). Mantenha a cabeça e os ombros eretos. Certifique-se de sua superfície de trabalho é na altura apropriada para que você não precisa se inclinar para a frente. Uma vez por hora, se possível, ficar em pé e alongar .Eu sei que não é fácil , mas você deve se policiar e não ficar “esparramado na cadeira , no sofá ou poltrona” .

Tendinite calcárea do ombro

Raio-x do ombro com calcificação na projeção do tendão

A tendinite calcárea do ombro é um processo inflamatório extremamente doloroso e que se caracteriza pela peculiaridade da calcificação de um ou mais tendões presentes no ombro .Um tendão inflamado normalmente não sofre calcificação , mas no ombro este processo , apesar de infrequente , ocorre numa proporção muito maior do que em outras articulações . O paciente pode ter crises dolorosas intensas , com importante limitação para realizar os movimentos com o braço . Estudos demostraram que , na tentativa de reaborver o depósito de cálcio , um processo inflamatório exacerbado ocorre e a dor se intensifica.

O tratamento consiste de medicamentos anti-inflamatórios e analgésicos durante as crises , fisioterapia , gelo local e repouso . Algumas outras possibilidades de tratamento incluem :

-infiltração com corticóides e anestésicos : normalmente promove um alívio importante da dor , deve ser usada com cautela e seus benefícios e riscos devem ser discutidos com o paciente;

-tratamento com terapia de ondas de choque : promoveria a “quebra” da calcificação e facilitaria a sua absorção posterior . Não existem trabalhos que sugiram que é um tratamento efetivo e tem um alto custo ;

-“barbotagem” , consiste na uma introdução de uma agulha até a calcificação e a aspiração deste conteúdo. Durante a fase reabsortiva , a calcificação se torna pastosa e é possível de ser aspirada. É um procedimento pouco realizado , doloroso , difícil de realizar no consultório .

-cirurgia : a artroscopia do ombro pode ser realizada naqueles casos mais resistentes ao tratamentos acima descristos . É uma opção interessante naqueles casos mais difíceis e com uma taxa de sucesso mais elevada.

Fraturas aumentam após cirurgia para redução de peso

Um  estudo exposto no último Congresso Americano de Endocrinologia  mostrou que pacientes que foram submetidos a cirurgia bariátrica para redução de peso   tiveram 2,3 vezes mais chances de sofrer uma fratura quando comparados com a população geral.

As alterações ósseas decorrentes da cirurgia , com as mudanças metabólicas e nutricionais relacionadas ao pós-operatório destes pacientes , levam a uma maior chance de fratura .

O estudo pequisou cerca de 280 pacientes que foram operados entre 1987 e 2004  . O pesquisador Nakamura notou também que pacientes que tinham uma atividade física mais ativa antes da cirurgia tiveram menos fraturas . Observou também que aqueles que tiveram fraturas não necessariamente tinham desenvolvido osteoporose. Leia mais neste link.

Opinião : a cirurgia bariátrica é uma poderosa ferramenta no tratamento das obesidades mais severas e vejo alguns resultados muito animadores no dia-a-dia como ortopedista . Não raramente encorajo alguns pacientes a refletir e pesquisar sobre o assunto. Mas é um passo que tem que ser muito bem avaliado pelo paciente e equipe médica , pois são várias as possibilidades de complicação , como a relatada aqui .